A recuperação de uma rodovia nem sempre começa com a retirada do asfalto antigo. Em determinados trechos, o próprio pavimento existente pode ser transformado em matéria-prima para uma nova estrutura. Essa é a lógica da reciclagem in situ, técnica que permite reconstruir parte do pavimento diretamente na pista, reaproveitando os materiais já existentes.
Reciclagem de pavimento: inovação e aplicação prática
Para Andreia Raffler, coordenadora de Pavimentos da Via Araucária, a principal diferença em relação a uma intervenção rotineira está na profundidade da solução. “Reciclar o pavimento no local significa transformar a própria pista antiga na matéria-prima da pista nova”, explica. O processo utiliza uma recicladora, equipamento que percorre a faixa e tritura o pavimento existente até a profundidade definida pelo projeto. O material é misturado dentro da própria máquina, com adição de emulsão asfáltica, água e cimento. Depois, a nova camada é nivelada e compactada.
A reciclagem de pavimentos não é novidade na engenharia rodoviária, mas a inovação está na evolução das técnicas e na utilização em maior escala de determinadas soluções. “A reciclagem de pavimentos é usada há décadas no Brasil e no exterior. O que é mais recente é o uso consolidado da técnica com emulsão asfáltica, que tem norma brasileira e vem sendo aplicada em escala no país há menos de cinco anos”, afirma Andreia.
Quando o problema está no pavimento
A técnica é especialmente indicada quando os defeitos da rodovia não estão apenas na superfície. Trincas recorrentes, afundamentos nas trilhas de roda e remendos que voltam a apresentar problemas podem indicar que a estrutura abaixo do revestimento perdeu capacidade de suporte. “Nestes casos, recapear só a superfície cobre o sintoma e o defeito reaparece. A reciclagem reconstrói essa camada de baixo, devolvendo capacidade de suporte à estrutura inteira”, explica Andreia.
“No caso da Via Araucária, a técnica tem se mostrado uma alternativa particularmente interessante devido à elevada espessura e à idade avançada dos revestimentos asfálticos existentes, submetidos a sucessivas camadas de reforço ao longo dos anos.”
Um ponto importante é que a camada reciclada não é o revestimento final. Após a reconstrução e o período de cura, o trecho recebe uma nova camada de concreto asfáltico, que será a superfície utilizada pelos motoristas.
Como funciona a reciclagem in situ do pavimento
Na prática, a execução ocorre de maneira coordenada, com diferentes equipamentos avançando juntos pela faixa de trabalho. Primeiro, o trecho é sinalizado e isolado. Em seguida, são distribuídos os materiais complementares. A recicladora entra em ação, triturando o pavimento e incorporando a emulsão asfáltica e a água na proporção definida em projeto.
Depois, o material é nivelado e compactado por rolos até atingir a densidade necessária. A seguir, ocorre a cura da camada reciclada, etapa em que o excesso de água é eliminado e a estrutura ganha resistência. Só então é aplicado o revestimento definitivo.
Apesar das vantagens, a técnica não é uma solução universal. Antes da execução, o pavimento passa por uma investigação que considera o histórico da rodovia, as condições da superfície, a capacidade estrutural, as espessuras das camadas e as características do solo. “São realizadas medições de capacidade estrutural, sondagens e ensaios laboratoriais. A partir desses dados, o time de engenheiros da concessionária define se o material existente possui condições de ser reaproveitado e quais serão as dosagens dos materiais complementares”, destaca Andreia.
Vantagens para o usuário e o meio ambiente
Um dos principais ganhos está na logística. No método convencional, é necessário retirar o pavimento antigo, transportar esse material, buscar novos agregados e levar os insumos até a obra. Na reciclagem in situ, boa parte dessa movimentação deixa de existir porque o material já está na própria rodovia.
Com isso, há redução do transporte de materiais, do consumo de combustível e da necessidade de extração de novos recursos minerais. Isso reflete em redução das emissões de gases do efeito estufa na ordem de 80% quando comparado com soluções convencionais.
Para o usuário, o benefício aparece na operação da obra com menos movimentação de caminhões, menor tempo de pista fechada e possibilidade de uma frente de serviço mais contínua. Assim, o que pode parecer apenas uma obra de recuperação do asfalto representa uma reconstrução planejada da estrutura da rodovia, utilizando parte da própria pista como matéria-prima para que ela volte a suportar o tráfego com segurança, desempenho e menor impacto ambiental.